`
 

 

 

 
  Colunistas
 
 
 
 
 
 

A JUDOCA RAFAELA

Por muito pouco não perdemos a medalhista dourada Rafaela Silva para o destino cruel e inexorável de milhões de brasileiros que vivem nas periferias urbanas de nosso país.


Rafaela tinha o perfil de quem nasceu para mais uma tragédia anônima, dessas que alimentam o noticiário policial da imprensa onde outras tantas rafaelas desprogetidas do Poder Público só encontram um ilusório apoio no mundo do crime organizado.

Só que Rafaela não aceitou o determinismo do seu cotidiano, mesmo tendo uma gravidez aos 13 anos de idade e lesões nos joelhos quando iniciava sua carreira de judoca no Instituto Reação, recém-montado na Cidade de Deus pelo ex-atleta Flávio Canto.

Rafaela ingressou no Instituto Reação aos sete anos de idade, matriculada por seus pais que a viam jogando futebol com meninos na favela Cidade de Deus e se preocupavam com aquele tempo ocioso da garota atrás de uma bola. Lá estava Flávio Canto, um abnegado brasileiro que resolveu fazer o que os governos não fazem por que estão preocupados em maracutaias e falcatruas bilionárias. 

Ela e sua irmã Raquel logo se destacaram pela vontade de praticar judô e o técnico Geraldo Bernardes procurou os pais da dupla pedindo permissão para que ambas permanecessem treinando já que se revelavam com grandes possibilidades de uma carreira naquele esporte.

Com 16 anos, Rafaela ganhou uma das etapas da Copa do Mundo de judô, em 2008, e tornou-se campeã mundial sub-20.  A partir daí enfileirou vitórias. Em 2011 foi medalha de prata no Pan-amaericano, em Guadalajara e, no mesmo ano, vice-campeã mundial adulta em Paris, com apenas 19 anos de idade. 

Na Olimpíada de Londres foi desclassificada por “um golpe ilegal”, segundo os árbitros, mas ainda em 2012, em dezembro, foi medalhista de bronze no Grand Slam de Tóquio (categoria até 63kg). De Londres, Rafaela traz uma amargura inesquecível, pois o racismo boçal  dizia-lhe que “era hora da macaca de largar o quimono”. 2013 foi um ano de glórias para a judoca. Em abril, logrou a medalha de ouro no Pan Americano de Judô.

Em agosto, Rafaela entrou para a história do Judô brasileiro ao tornar-se a primeira brasileira a se sagrar campeã Mundial de Judô, vencendo na final a americana Marti Malloy. Em fevereiro de 2015, a atleta venceu o Grand Prix de Dusseldorf, na Alemanha, ganhando cinco lutas, quatro por ippon.

Nesta segunda-feira, Rafaela conquistou a medalha de ouro olímpico calando aqueles que a ofenderam em 2012 e gravando seu nome no judô mundial. Foi a vitória de sua família, de seus treinadores e apoiadores com destaque especial para a Marinha do Brasil que lhe dá a patente de sargento

O RACISMO BOÇAL

Quando foi eliminada em Londres, Rafaela quase desistiu da carreira. Ouviu e leu ofensas nas redes sociais tais como “macaca” e que “era uma ofensa para sua família”. Não queria mais treinar e sua amiga e judoca Bianca Gonçalves tentava lhe dar “uma força”.

A MÁGOA

Bianca Gonçalves, em entrevista a EBC-Agência Brasil, contou que Rafaela “toda vez que ia no treino, víamos que estava com cara de choro, que não queria treinar, mas dizíamos que em 2016 seria no Rio e fazíamos tudo para ela treinar”.

NAS REDES SOCIAIS

Rafaela não tem mais seguidores racistas nas redes sociais, desde sua superação em 2013. A boçalidade de 2012 foi substituída por admiradores. Milhares deles desde segunda-feira passada.  Tinha dez mile ganhou mais 50 mil em 24 horas.

A RESPOSTA

Quando lhe perguntaram o que diria aos que lhe dirigiram ofensas raciais, Rafaela disse apenas que publicaria a foto da medalha de ouro. “Não precisa nenhuma mensagem, pois a medalha já diz tudo”.

E SE ...

... apenas dez por cento do que se roubou na Petrobrás e em outras falcatruas fossem dedicados ao desenvolvimento do esporte olímpico quantas medalhas de ouro seriam destinadas ao Brasil?