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AS GREVES BRASILEIRAS

Diplomata e pensador liberal, o embaixador J. O. Meira Penna, falecido no ano passado aos 100 anos de idade, tinha o mesmo pensamento de Roberto Campos (1919-2001), também diplomata e embaixador, além de senador. Ambos já nos deixaram,  mas suas teorias e seus livros permanecem com uma atualidade de causar arrepios, pois eram os oráculos de Brasil que não lhes deu ouvidos e, por isso mesmo, está à beira de uma ruptura institucional.

Meira Penna relaciona quatro tipos de comportamento social vigente no nosso planeta: "Em primeiro lugar, o padrão ideal que, a meu ver, é o da Inglaterra, onde tudo é permitido, salvo aquilo que é proibido. A Suíça oferece o segundo modelo, menos perfeito, o domínio do verboten, onde tudo é proibido, menos aquilo que é especificamente permitido (gestatten). O terceiro tipo é o dos países totalitários, de autoridade atrabiliária, em que tudo é proibido, mesmo aquilo que é permitido (como é o caso de Cuba e da antiga Alemanha Oriental). Os países como o nosso, anárquicos, antinômicos, carnavalescos, pertencem à quarta categoria onde tudo é permitido, mesmo aquilo que é proibido."

Até as greves – o mais nobre movimento de trabalhadores em busca de seus direitos – no Brasil ficam desmoralizadas.  A greve dos caminhoneiros talvez tenha sido uma exceção até o momento em que ela, depois de ter demonstrado algumas reivindicações justas (pedágios em rodovias esburacadas, preço do combustível absurdamente tributado pela antropofagia fiscalista dos governos). Mas como tudo na vida humana, os limites foram ultrapassados quando o auge da greve (provavelmente no último fim de semana) descambou para a desordem e para pedidos absurdos como tabelamento do frete.

Uma greve com legitimidade não pode impedir o direito de ir e vir dos cidadãos e muito menos de quem quer trabalhar e é bloqueado pelo convencimento do uso da violência.  Só há legitimidade numa paralisação de trabalhadores quando não existe piquete proibindo a liberdade sagrada da movimentação de pessoas e veículos.

Nas democracias, as greves são definidas como um enfrentamento pela busca de direitos trabalhistas e não podem causar danos e prejuízos a quem não está diretamente envolvido no conflito. Qualquer transbordamento dessa luta entre patrão e empregado, a paralisação torna-se política. No sistema capitalista, uma greve sempre ocorre quando o diálogo se esgota e aí, para ter sentido e legitimidade, as partes digladiantes  passam a ter prejuízos evidentes. Os salários são cortados, a produção cessa e o entendimento, com concessões de ambos os lados, torna-se necessário.

No Brasil, as greves trazem prejuízos, é verdade, mas a conta sempre vem para quem não é grevista ou patrão. Quem paga a desordem é o cidadão comum, o contribuinte.  Nesta greve, o governo foi envolvido e agora alega que teve prejuízos e vai buscá-los metendo a mão no nosso bolso.   Neste país hilário, a desmoralização da greve começa quando a primeira reivindicação dos grevistas é o pagamento dos dias parados.

 

Autor: Rogério Mendelski

Postada em: 04/06/2018

 

 

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